“Compondo” a Atenção Domiciliar: Harmonia, Ritmo e Melodia; Instrumentos e Letra no Cuidado em Domicílio.
Compor: conceber (obra do espírito, obra de arte); criar (composições) por meio de notação musical, escrever; tornar unido, formar (se), constituir (se); dar forma; estruturar… São múltiplas as definições trazidas pelo Houaiss para a palavra compor; definições estas carregadas de significado e relacionando-se a diferentes propósitos, assim como a diversos contextos. Apesar dos diferentes sentidos e significados, compor relaciona-se sempre a criar, conceber, estruturar, seja na música, na literatura, no cotidiano mais simples ou na ação mais complexa.
Compomos sempre “junto” ao outro, com o que temos a mão, com o que é possível, ou ainda, somente com o que sonhamos… Assim nascem as canções, assim surge a música. O que era somente sonho de canção ou mero desejo de transcrever para o papel sentimento e emoção concretiza-se na forma de letra e/ou partitura.
A composição no papel é efêmera. Para se tornar efetivamente música, canção, deve ser introjetada no ser, assimilada pelo ato de ouvir e tornada sentimento. A música será tão mais significativa quanto mais vinculada estiver à história de uma época, de um povo, de um grupo, ou somente de um coração. Assim é, por natureza, coletiva e individual, pública e particular, superficial e íntima; assumindo cada uma dessas possibilidades nos diferentes espaços em que circula, nos diversos momentos em que se faz presente, sempre relacionada à forma como se fixa na memória. “O que a memória ama fica eterno”, reflete Adélia Prado.
“Cantar era buscar um caminho que vai dar no sol”, nos diz Milton Nascimento. Nesta perspectiva a música pode ser entendida como um caminho, uma “estrada” a ser seguida, percurso que une enquanto separa, aproxima à medida que afasta. A música, de maneira fácil e hábil, pode unir ou afastar gerações, aproximar pessoas, congregar sentimentos, exaltar emoções, “marcar” datas com o que há de mais alegre e doce, assim como com o que há de mais triste e doído.
As canções se fazem presentes em nosso dia-a-dia de forma tão pungente que demarcam nosso cotidiano, seja porque a escolhemos por companhia, seja porque se apresentam em momentos marcantes de nossa história e, a partir daí, estarão sempre a eles associadas.
Por fazer parte do cotidiano é que apresentam sempre uma temática sem fim: cantam amores conquistados ou impossíveis, festas e funerais, fatos cotidianos e históricos, passado e presente, acontecimentos ou mera ilusão. E serão lembradas quanto mais completamente nos tocarem, quanto mais nos emocionarem, quanto mais nos encantarem…
Assim pode ser analisada a trajetória da assistência domiciliar brasileira, que já consolidou uma história repetida e adaptada nos diferentes “cantos” brasileiros, firmada e reconstruída nas diversas realidades, sempre tendo como aspectos condicionantes: a população alvo de seus serviços, os principais problemas enfrentados e as potencialidades do lugar e das equipes.
Ritmo, harmonia e melodia; instrumentos e letra. Como na música, muito já sabemos o que concretamente é possível realizar/“tocar”, quais são as letras (teorias) plenamente adaptáveis a esse espaço particular e quais são os instrumentos por nós utilizados com o intuito de alcançarmos diferentes objetivos. O ritmo da atenção domiciliar é dado freqüentemente pela necessidade apresentada pelos pacientes, pela organização das equipes e pela proposta e nível de intervenção que as diferenciam: visita, assistência ou internação domiciliar. A harmonia muito se aproxima do conhecimento que a equipe tem de si mesma, de suas possibilidades e limites; da prática/técnica embasada em uma teoria condizente, práxis, e do cuidado que tem em se aproximar do cuidador, familiar e paciente em uma proposta efetiva de parceria.
Há cuidados domiciliares que se assemelham a melodias? Como transformar em uma seqüência de cuidados harmoniosa o que em um primeiro momento apresenta-se como uma sucessão de sons em desarmonia? Talvez seja essa a grande pergunta/resposta das equipes que atendem, em domicílio, realidades marcadas por sofrimento, dor e conflitos.
Assim como harmonia, melodia e ritmo, letra e instrumentos compõem, de forma indissociável, o que chamamos de música, na assistência domiciliar todos os itens anteriormente descritos ocorrem em um continuum e se estruturam em um todo coeso na proposta de bem atender paciente e família.
Assim, em comemoração aos 10 anos de CIAD, nos propomos a refletir a atenção domiciliar tendo como pano de fundo a música brasileira, que nos acompanha desde sempre. Nessa perspectiva, partindo de uma música como tema central, as palestras, mesas-redondas, painéis e apresentações de temas livres versarão sobre o repertório de práticas consolidadas/respeitadas e as que buscam seu lugar ao sol, o fazer cotidiano em suas admiráveis adaptações no domicílio e o que ainda é utópico, sobre o ritmo adotado por diferentes serviços com êxitos e percalços vividos pelo caminho, “coletânea” passada e presente, realidade e sonhos futuros.
Aos novos parceiros e aos constantes de caminhada: venham “compor” conosco o CIAD 2011, em uma demonstração de que, se como na música o desenrolar da história traz a necessidade de adaptação, recriação e rearranjo, também prevê o respeito ao considerado atemporal e a repetição daquilo que se firmou como “sucesso de público”.
Como nos (en)canta Chico Buarque:
(…) quando vai alta a madrugada
E a teus pés vão-se encostar os intrumentos
Aprendi a respeitar tua prumada
E desconfiar do teu silêncio
Penso ouvir a pulsação atravessada
Do que foi e o que será noutra existência
É assim como se a rocha dilatada
Fosse uma concentração de tempos
É assim como se o ritmo do nada
Fosse, sim, todos os ritmos por dentro
Ou, então, como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento.





